domingo, 29 de janeiro de 2017

Raymundo Luiz: "falando francamente"

Foto reproduzida do Facebook/Raymundo Luiz da Silva.
Postada por MTéSERGIPE, para ilustrar a presente publicação.

Publicado originalmente no site Osmário Santos, em 22/06/2002.

Raymundo Luiz: "falando francamente".
Jornalista tem passagens com destaque pelo rádio, jornal e vida pública de Sergipe.

Por Osmário Santos/JC.

Raymundo Luiz da Silva nasceu a 28 de setembro de 1929 na cidade de Aracaju-Sergipe. Seus pais: Manoel Messias da Silva e Eremita Moura da Silva.

O pai foi “guarda-livros”, o equivalente hoje ao nível superior em Ciências Contábeis, tendo feito, durante muitos anos, a “escrita” (os livros de Contabilidade eram escriturados à mão) de importantes firmas da época, como Sergipe Industrial, Cruz Irmão e Irmãos Brito. Dele o filho herdou a sobriedade, a tranqüilidade e o respeito à palavra empenhada, lições que procurou transmitir aos filhos.

Da sua querida mãe, D. Eremita, Raymundo recorda que ela colocava a família sempre em primeiro lugar. Desprendida, gostava de criar pessoas, a quem acolhia como se fizessem parte da família. “Foi uma lutadora que durante anos fez bolinhos de ovos que eram vendidos nas ruas de Aracaju, para ajudar nas despesas da casa e na educação dos filhos. “Dela herdei essa imensa ternura que tenho pelo ser humano”, sensibiliza-se Raymundo.

A infância aconteceu de forma inesquecível pelos jogos de bola de meia com os amigos nas areias da rua de Maruim, entre as ruas de Santa Luzia e Itabaiana, ou os banhos de mar e os pulos do trampolim que existia próximo à Ponte do Imperador.

Curso primário foi realizado no Colégio “Santo Antônio”, na rua de Santa Luzia, sendo aluno da professora, Dona Guiomar Tavares. “Ela me transmitiu o gosto pela leitura de textos do livro tradicional da época “A Crestomatia”, insistindo pela pronúncia exata das palavras e pela real interpretação dos textos lidos.

Fez o ginásio completo no Colégio Salesiano “Nossa Senhora Auxiliadora” e, recorda-se bem do professor de Inglês, Tennyson Ribeiro, além de grandes mestres como os Padres Angelo Spadari, Antônio Campelo e outros. “Fui titular do time de futebol do Salesiano, que se chamava “auriverde”, e que era o “bam-bam” nos meios estudantis”.

No Ateneu o curso clássico e o de Contabilidade, na Escola Técnica de Comércio “Conselheiro Orlando”, na Praça Camerino, quando começa a dar os primeiros passos na prática da Contabilidade. “Quando a firma “José dos Santos” veio para Aracaju fiz, durante meses, a escrita de sua loja que ficava na rua Apulcro Mota; era auxiliar do contador e colega bancário José Gomes”.

Raymundo lembra que o tempo da sua juventude foi dos mais movimentados: “No Cotinguiba joguei futebol, banhos de mar na Praia Formosa, “peladas” de futebol nos apicuns atrás da Igreja São José ou na “Areinha”, onde hoje está construído o novo Atheneu Sergipense. Das “danças” nas casas de família, dos bailes na Atlética e no Cotinguiba, clube de minha paixão. As retretas nas noites de domingos, ou as matinês nos cinemas da cidade, Rex, Guarani, Rio Branco. Foi o bom tempo da prática pioneira do halterofilismo, no Ginásio Grimek, com halteres improvisados feitos de cimento, na casa de Rui Bessa, que se tornou meu cunhado (casou com minha irmã, Maria Cândida. Depois o Centro de Cultura Física, que ainda hoje funciona, e bem, ao lado do meu irmão-amigo Euripedes Felizola”.

Fez Filosofia, por escolha pessoal e muito pesou na opção do curso superior, seu gosto pela leitura e busca do conhecimento. Raymundo relata: “Fiz Vestibular – inclusive com a matéria Latim – fui aprovado de primeira e não havia trote naquela época. Também se quisessem cortar meu “pimpão”, ia sair do sério (risos)”. Desportista de fé, como universitário, chegou a ser o presidente da FAES (Federação Atlética dos Estudantes de Sergipe).

De sua passagem pela Faculdade de Filosofia reconhecimento pelos mestres e de outros grandes momentos: “Tive o privilégio de ter uma banca de mestres do maior gabarito na Faculdade de Filosofia: Dom Luciano Duarte, Cabral Machado, José Silvério Leite Fontes, Paulo Machado, Cônego Carvalho, dentre outros, e quando conclui o Curso, então já na Universidade Federal de Sergipe, fui escolhido para ser orador da turma de todas as categorias de formandos naquele ano. Aliás, eu fui o único que concluiu o Curso de Filosofia; os que começaram comigo na Faculdade, ou viajaram para outros estados ou desistiram. Foi aberto um livro de Atas na UFS só para registrar a conclusão deste Curso de Filosofia, algo no estilo o “último dos moicanos” (risos).

Começou a trabalhar bem cedo e o primeiro emprego aconteceu no Banco do Comércio e Indústria de Sergipe, da família Franco, presidido pelo Sr. José do Prado Franco e tendo como diretor-gerente o Dr. João do Prado Franco. “Foi feito um teste de seleção, e me lembro que participaram dele bons amigos como Paulo Espinheira e Pedro Pires. Com esses dois e Murilo Dantas (Banco Dantas Freire) formamos uma guarnição de remo (4 com patrão) que dava show no estuário do Rio Sergipe. No Banco do Comércio (Bancides) conheci grandes figuras humanas como Leonardo Ribeiro, Rivadávia Brito Bomfim, Antônio Oberdan Felizola, Sr. Pedro Reis Lima, Manoel Joaquim Soares Lima, Joviniano Fonseca Filho, Humberto Maciel (que assinou minha Carteira Profissional), Renato Franco Oliveira e vários outros grandes profissionais. O Dr. Luiz Garcia era o advogado do Banco”.

Aprovado no concurso no Banco do Brasil, deixa o Banco do Comércio e Indústria onde tinha um salário melhor do que o inicial do Banco do Brasil e assumi o novo emprego no BB em 1º de setembro de 1952, na agência em Itabaiana/SE. Raymundo orgulha-se de dizer que o “Banco do Brasil é uma escola de vida e lá fiz amigos para o resto da vida, dentre tantos inesquecíveis, José Conde Brandão, Adalberto Moura, Enivaldo Araújo, Paulo Fernando, Osvaldo Carvalho, Raulito Ribeiro Nunes, Felizola, Clóvis, Fernando Tiúba, Rochinha, Eduardo Ribeiro, José Hilton Rocha, Lises, Canabrava, Augusto Viana, Antônio Eduardo, Ademar, Clemência, Marta, Rosa, tanta gente boa que me penitencio de certamente ter esquecido vários tão preciosos quanto os citados.”

Tem paixão pelas práticas esportivas: remo, tênis, natação, halterofilismo e, principalmente, futebol, onde vestiu camisa de clube. “Joguei no Estudantil de “Cobrinha”, no Cotinguiba, no Itabaiana e no Sergipe, como titular. Embora não gostasse de assanhar o cabelo, driblava bem, o que me valeu muitas botinadas, razão de hoje andar capengando” (risos).

Emplacou seu nome na história do rádio sergipano e conta como tudo começou: “A Rádio Cultura era da Arquidiocese de Aracaju, e como universitário na Faculdade de Filosofia, Dom Luciano que era meu professor e Diretor Presidente da emissora, por saber que eu era um desportista por vocação, convidou-me para dirigir o Departamento da emissora. É quando começa o “Falando Francamente” que marcou minha carreira no rádio esportivo. Agora tem um programa da Sonia Abrãao, na TV, com esse nome, vou cobrar direitos autorais. Brincadeira”.

Do esporte passou a dirigir a Cultura diante da necessidade que a emissora sentiu de que era preciso aumentar a audiência com a mudança de programação. “A Rádio Cultura era de fato uma emissora dedicada à cultura. Alencar Filho, Ribeirinho (Sodré Junior) Aglaé Fontes e outros a implantaram sob a égide de uma programação essencialmente educativa e cultural. Mas, infelizmente, qualidade não dá Ibope, e a direção da emissora resolveu que ela se tornasse mais popular. Como o esporte sempre deu grande audiência, fui convidado para estender o dinamismo do esporte por toda a programação da Rádio Cultura. Na verdade, se méritos tive, foi porque sempre procurei me cercar dos melhores, de profissionais melhores do que eu. Deu certo”.

Dos colegas de trabalho do seu tempo de Rádio Cultura: “Foi grande ter convivido com radialistas do porte de Reinaldo Moura, Carlos Magalhães, Wellington Elias, Acival Gomes, Paulo Gomes, Humberto Mendonça, Hélio Fernandes, Antônio Pádua, Antônio Barbosa, Alceu Monteiro, Canabrava de Mendonça e muitos outros. Em determinado momento, a Diretoria da Cultura decidiu que a Rádio passasse a ter um Editorial, estabelecendo a linha de pensamento da emissora, sobre todos os assuntos que interessavam ao Estado”. É quando começa a “Nossa Opinião”, da qual fui durante anos redator e apresentador. A equipe editorial da Rádio Cultura era uma academia: Dr. Jorge de Oliveira Neto, Dom Luciano Duarte, Professor Silvério Fontes, Dr. Paulo Machado, Dr. Cabral Machado, enfim, padrão de excelência, competência e cultura”.

Como profissional do rádio foi testemunha de muitos fatos e dos interessantes registra para a memória de Sergipe alguns deles: “Dia 31 de março de 1964, acompanhei na Maternidade o nascimento do meu terceiro filho, e às 5 horas da manhã foram me buscar num jipe do Exército. O cristal da rádio tinha sido retirado, e o seu retorno ao ar dependeu do compromisso de só tocar hinos cívicos. Outra: numa madrugada vieram me buscar em casa porque um locutor endoideceu e estava fazendo a maior confusão. Consegui convencê-lo, e levei-o de carro, para que tivesse uma assistência especializada no Hospital “Adauto Botelho”. Telefonei antes, avisando, que ia chegar. Deixei-o na porta do hospital, enquanto estacionava o carro. Quando cheguei no hall, ele já tinha anunciado aos enfermeiros: “olha o doido chegando aí”. Era eu...

“Mais uma? A torre de transmissão da Cultura ficava onde hoje está o Cemitério “José Conrado de Araújo”. Era um ermo. Walter Teles, controlista de plantão, me telefonou e, tremendo de medo, me disse que algumas pessoas desceram de um carro perto da torre, cavaram um buraco com pás, jogaram um corpo dentro, cobriram novamente de areia e foram embora. Nunca fui herói, mas diretor é pra essas coisas. Chamei o colega e amigo, gigante Geraldão (Geraldo Oliveira) comuniquei por telefone à Polícia e fomos para lá, acalmar Walter que estava pra dar um troço. Uma hora depois chegou a equipe da polícia, iluminou o local com faróis, cavaram e lá estava o corpo coberto por um encerado: o corpo era de um cachorro enorme”.

Na mídia impressa primeiro atuou como diretor-administrativo do “Sergipe Jornal”, a convite do seu proprietário, José Carlos Teixeira. “José Carlos Teixeira vendeu o matutino aos “Diários Associados”. Os diretores que aqui chegaram, Dr. Odorico Tavares e Paulo Nacif, depois de tomarem informações, convidaram-me para continuar no cargo, como Diretor-Executivo do “Diário de Aracaju”... Aceitei. A estrutura dos “Diários Associados” era perfeita e o “Diário de Aracaju” marcou uma revolução na imprensa escrita de Sergipe, até porque concorrência é sempre estimulante”.

Da sua presença na direção do jornal dos Diários Associados em Aracaju muitas conquistas: “Fiz grandes relacionamentos, muitos amigos, convivi e aprendi com pessoas excelentes. Imagine: Luiz Eduardo, Leó Filho, Osório Ramos, Erotildes Araújo, Nazário Pimentel, Henio Costa, Edén Franklin, Maria Luiza Cruz, Paulo Nou, Jorge Araújo, Hugo Costa, Luis Lobão, Jorge Carvalho, Jackson Sá Figueiredo, Teotônio Neto, Jurandi Cavalcanti, Aurélio Mesquita, Simeão Fagundes, Givaldo Santos, Tereza Newman, Jurandi Santos, Orlando Souza, Amaral Cavalcanti, tanta gente boa que citá-las iria consumir todo o espaço.

Raymundo foi diretor da melhor fase editorial do Diário de Aracaju e nesse período, indicado pelo colega dos tempos de universitário, depois Ministro, Geraldo Barreto Sobral, genro de Dr. Lourival, aceita o convite para ser secretário particular do então governador Lourival Baptista. “Passei poucos meses no cargo, pois o governador não conseguiu (?!) que o Banco do Brasil me liberasse. Aí é outra história. Dois anos depois ele mesmo conseguiu que eu fosse posto à disposição do Movimento de Educação de Base, na Rádio Cultura. O Arcebispo D. Távora pediu-lhe, ele conseguiu, na hora”. Sintomático.

Passado o governo Lourival Baptista, tempos depois, retorna à vida pública, no I Governo João Alves, como Assessor Especial, depois Secretário de Comunicação, tendo também exercido as funções de Superintendente da Fundação Aperipê, da qual foi o implantador.

No II Governo João Alves volta a ser Secretário Especial de Comunicação Social e no mesmo governo passa dois anos como Secretário Especial de Assuntos Institucionais. No Governo Antônio Carlos Valadares atuou como Secretário Especial de Assuntos Político-Governamentais e depois Assessor Especial.

Com os curiós, Raymundo Luiz tem uma grande cumplicidade. “Adoro a natureza, especialmente o canto mavioso dos passarinhos, que crio desde garoto. Curiós são os meus preferidos. São aves especiais, e a tradução do seu nome indígena é “amigo do homem”. Os curiós estavam em extinção, mas, atualmente eles são reproduzidos em cativeiro, com anilhamento e autorização do Ibama, tudo certinho”.

Exatamente há 40 anos, em 1962, entra no Lions Clube Aracaju, onde exerceu todos os cargos diretivos no seu Clube, alguns na região, sendo atualmente Sócio-Vitalício. Com orgulho diz que tem o Diploma Especial de “Amigo de Melvin Jones”. “É uma grande entidade com mais de 1.400.000 sócios em todo o mundo. É uma honra ser Leão”, conceitua Raymundo.

Parte do seu tempo para os trabalhos jornalísticos que continua a desenvolver até hoje é dedicado ao Poder Legislativo Estadual. “A Assembléia Legislativa é o núcleo central de todos os principais acontecimentos do Estado. Em 1999, quando resolvi “botar a cara de fora”, trabalhar com os colegas na “bancada vermelha” passou a ser uma rotina. Dali extraio tudo que escrevo, e ali aprendo todos os dias as melhores lições de minha vida. O ano passado fui homenageado com a mais alta comenda do Poder Legislativo: Ordem do Mérito Parlamentar. Por unanimidade. Como se vê, a Assembléia é uma casa cheia de generosidade”.

Casado com Lourdinha, desde 1953, espera para o próximo ano comemorar, com a mesma felicidade de sempre, as Bodas de Ouro. “Minha família é tudo para mim. Meus filhos que amo tanto, são Ângela, professora, Sérgio, economista e analista de sistemas, Dinara, decoradora de interiores, Raimundo Luiz Filho, professor de Educação Física, Breno, Curso Superior de Computação, e aí essa turma me deu genros e noras – Aída, Roberto, Custódio e Patrícia – netos – Carol, Elber, Lucas, Raymundo Neto – e bisneta, a fofinha Marina.

Para Raymundo “viver é a grande emoção da existência”. Emoção mais forte: a morte dos meus pais. Decepção é ser agredido, sem explicação, principalmente por quem menos se espera. “Acontece. Faz parte. Mas, dói”.

Foi homenageado com os Diplomas da Ordem do Mérito Aperipê (Estado) – Dr. João Alves –, do Mérito Serigy (Prefeitura) – Dr. Viana de Assis, e, mais recentemente, com a Medalha do Mérito Parlamentar (Assembléia Legislativa) – deputada Susana Azevedo – além do Sindicato dos Jornalistas (Sindijor) – jornalista Milton Alves. “Dizem que o homem na sua vida tem de ter um filho varão (tenho três), plantar uma árvore (já plantei centenas) e escrever um livro (já comecei, se der tempo, termino) Falando Francamente.

Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario

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