quinta-feira, 17 de maio de 2012

Memória Rádio Sergipano: Luciano Alves ( 1940 - 2009)

Foto acervo Ludwig Oliveira

Luciano Alves um sergipano que brilhou no rádio brasileiro
Por Osmário Santos *

Luciano Alves Santos nasceu a 5 de outubro de 1940, na cidade de Aracaju/SE. Seus pais: Aloísio Santos e Alcira Alves Santos.
Por um bom período seu pai trabalhou na função de fiscal de tributos do município de Aracaju. Também trabalhou por conta própria por um período como técnico de refrigeração, profissão que deu continuidade ao se aposentar. Dele o filho herdou o caráter.

Com sua querida mãe, mulher que continua dando bons exemplos de vida, aprendeu a criar os filhos com completa doação e muita dosagem de carinho, além de aplicar praticidade em tudo que faz na vida.

Os primeiros estudos aconteceram no Colégio Jackson de Figueiredo, recebendo aulas de alfabetização com a professora Judite Alves de Oliveira. Na continuidade dos estudos, fez o curso primário no Colégio Nossa Senhora Menina, como aluno da professora Antônia. O ginásio e o científico no Atheneu.

Considera um tempo glorioso em sua vida o que passou no famoso colégio da rede pública estadual, pela oportunidade que teve de receber conhecimentos em sala de aula através de professores que marcaram época no ensino em Sergipe. “ Fui aluno da professora Ofenísia Freire, Thetis Nunes, Dalva Linhares Nou, José Olino, Cleonice Franclin e tantos mestres de grande qualidade”.

Dos colegas do Atheneu, boas lembranças de Manoel Prado Vasconcelos (Pradinho), Novias, Oziel, José Maria e Pacheco.

Ainda do Atheneu de sua época, não esquece do Grêmio Clodomir Silva, não por militância política e sim por sua atuação no programa que o grêmio apresentava na antiga rádio Difusora uma vez por semana, que lhe deu condições de manter o primeiro contato com o microfone. “Na época, o grêmio não tinha conotação política, mas eu desenvolvia outras atividades, inclusive esportiva. Como os colegas achavam que eu tinha uma voz bonita, fui indicado para ser o apresentador do programa que o grêmio mantinha no rádio. Não tive receio porque desde menino que já era um coruja de rádio. Isso aconteceu entre 1954 a 1955”.

Luciano se deu bem com o microfone nos seus primeiros passos e logo consegue espaço para trabalhar o rádio e com tempo para continuar o seu curso científico no Atheneu. Pela sua ida ao Sul para voar profissionalmente muito mais alto, por um tempo deu uma parada nos estudos, só retornando como aluno do curso de Direito da Faculdade Bom Sucesso, no Rio de Janeiro. “Me formei em 1980. Confesso que só fui aos bancos da faculdade para fazer uso dos conhecimentos da área do Direito a fim a passar para o meu público de rádio. No programa que apresentava no rádio do Rio de Janeiro eram feitas muitas perguntas na área do Direito Civil, no Direito da Família, principalmente pensão alimentícia. Buscando isso fiz Direito”.

A juventude em Aracaju foi mais envolvida por festas do esporte. Um tempo gostoso de um Aracaju do passado, quando se andava nas rua até as altas hora da madrugada em completa paz e sem ser incomodado ninguém. Um tempo inesquecível que nos traz a lembrança da retreta da praça Fausto Cardoso e rua João Pessoa aos domingos e que tinha como ponto alto o horário das 21h, que representava o momento em que soltavam o leão e com isso todo mundo corria para casa. Na retreta da praça as garotas que circulavam estavam descomprometidas, livres para o namoro. Já as que ficavam encostadas é porque tinham compromisso, mesmo não estando com o namorado naquele momento. De hipótese alguma elas poderiam passear pelas calçadas. Uma época gostosa”.

A carreira no rádio aconteceu graças a amizade que mantinha com Alencarzinho, que convidado para dirigir artisticamente da rádio Cultura no momento de sua inauguração, já conhecedor da boa voz do Luciano e do seu bom desempenho com o microfone nos programas dos estudantes do Atheneu na rádio Difusora, aproveita seu potencial dando-lhe espaço para trabalhar como narrador. “Aí juntei com Aglaé e fizemos o Gato de Botas, que foi um grande sucesso. Também narrava notícias, documentários e crônicas”. Na rádio Cultura, Luciano trabalhou por um ano e meio.

Surgindo a possibilidade de fazer um estágio no rádio paulista, graças a um convênio da rádio Cultura de Aracaju com a rádio 9 de Julho, parte para o Sul do país a fim de aprimorar seus
conhecimentos.

Em São Paulo se encontra com Oscar Macedo Filho, ex-companheiro de trabalho em Aracaju na rádio Cultura. Empregado na rádio Panamericana, Oscar leva Luciano para fazer teste na emissora em que trabalhava. “Fui aprovado e logo percebi que tinha tudo para poder voar mais alto. Mas voltei para Aracaju e fiquei mordido, pois percebi que no Sul o campo para o meu trabalho no rádio era maior. Seis meses depois deixei a rádio Cultura e fui fixar residência no Rio de Janeiro. Não fiz opção para trabalhar na Panamericana em São Paulo, mesmo tendo sido aprovado no teste, por ter no Rio de Janeiro o tio Haroldo Alves Macieira, que tinha assegurado um lugar para me abrigar”.

Como conhecia o locutor sergipano Wolnei Silva que já tinha conquistado um lugar no rádio carioca, fui até o seu lugar de trabalho, a rádio Nacional, fazer-lhe uma visita. Ao encontrar o amigo, de imediato ele me perguntou o que estava fazendo na cidade. Disse que estava com vontade de fazer rádio e ele mandou que tivesse juízo, pois seria difícil conquistar espaço pelo meu sotaque. Me aconselhou a comprar um rádio para começar a ouvir programas e noticiários no rádio do Rio de Janeiro para ver se conseguia fechar a pronúncia do é e de outras vogais. Mas não ficou só em conselho e me levou para fazer um tese na rádio Carioca, mas isso só ocorreu depois que passei um período escutando rádio e fazendo treinamento de voz. Fui aprovado e fiz minha estréia como locutor comercial. Também tive chance de ler algumas notícias”.

Da rádio Carioca Luciano conta que surgiu uma oportunidade de fazer um teste para conquistar a vaga de locutor de final de semana da rádio Globo. Aprovado no novo emprego, o tempo de um ano diante da oportunidade de emprego na rádio Guanabara com uma melhor remuneração e mais tempo de trabalho. “A emissora estava formando uma nova equipe e lá tive momentos de alegria, pois fiz amizade com João Saldanha, que fazia futebol. Na Guanabra, meu trabalho era o de ler notícias. Depois de um ano e meio, a Globo me chama de volta e com melhores condições de trabalho e daí trabalhei por 25 anos”.

Voltou no trabalho de locutor comercial com um melhor salário e sem trabalhar em final de semana. Seu horário na emissora era das 5h às 7h30, fazendo locução comercial do programa Haroldo de Andrade. “Tinha de ficar presente no estúdio junto do apresentador para ler os comerciais, pois naquela época 80% dos comerciais eram lidos ao vivo, sem uso de gravação como acontece hoje. De vez em quando, Haroldo chegava tarde e assim eu abria o seu programa. Logo fui aprendendo a sua dinâmica até que um dia ele não compareceu e eu coloquei o programa no ar. Comecei, fui conquistando espaço e então passei a ler o noticiário de meia hora da Globo, intitulado ‘O Seu Redator Chefe’. O fato interessante é que 10 anos depois Wolnei Silva foi contratado e passou a ler o noticiário comigo. Foi a grande alegria de minha vida, pois trabalhei com quem me colocou no potente rádio no Sul do país.

Com a saída de Luís de Carvalho para a Tupy, a Globo tirou o Haroldo de Andrade do seu horário habitual e o colocou no horário das 9h ao meio-dia. Como a mudança aconteceu de forma repentina, Luciano foi chamado pelo diretor Mário Lins para ficar com a responsabilidade do horário que o Haroldo apresentava nos primeiros momentos da manhã. “Ele ligou para mim e mandou que eu tocasse o programa já que não sabia o que fazer no horário. Entrei no mesmo estilo e fui fazendo a mesma coisa. Um mês depois, Mário me chamou para dizer que não tinha encontrado ninguém e que a emissora estava disposta de me proporcionar uma oportunidade. Mandou que assumisse e me disse que a partir daquele momento o programa seria chamado de Luciano Alves Comunica. Isso caiu do céu. Aconteceu entre 67 e 68 e fiquei na Globo até 87”.

Trocou a Globo pela Rádio Tupy por uma proposta financeira irrecusável e abertura de fazer o mesmo programa e com nome e toda sua estrutura. “Estava precisando ganhar mais, pois precisava formar um filho piloto que me custava muito caro pelas horas de voo. A Tupy me ofereceu uma proposta superior ao dobro que ganhava na Globo”.

No rádio carioca Luciano passou o tempo de 35 anos de muito trabalho e conquistas. Pelo seu microfone ajudou a muitos sergipanos, demais nordestinos e a Sergipe no trabalho que fazia da divulgação do nosso turismo. “Ajudei a muita gente e promovi a minha terra como ninguém. Lamentavelmente muitas vezes o Estado fazia festa, convidava muita gente, mas da terra não convidava ninguém”.

Do tempo da Globo não pode esquecer da primeira vez que leu o noticiário O Globo no Ar. “Quando acabei estava molhado da cabeça ao calcanhar, além de ter molhado todo o papel que continha o noticiário. Outro fato interessante na sua vida no rádio brasileiro aconteceu quando passou a ser o locutor substituto do famoso e histórico noticiário Repórter Esso. “Quando o Heron Domingues deixou o locutor Roberto ficar em seu lugar e eu passei a ser o seu substituto. Assim fazia o Repórter Esso aos domingos e nas eventuais faltas do locutor titular”.

Aposentado e com os filhos já criados, no segundo casamento sente saudade da sua terra e necessidade de passar um tempo perto de seu pai e para se afastar da violência do Rio de Janeiro, resolve morar em Aracaju.

Com seis meses de residência em Sergipe, sente com pesar a morte de seu querido pai.Com mais um ano e meio consegue espaço no rádio sergipano, mesmo assim com muita luta. Passa um tempo na rádio Atalaia e mais outro da Liberdade AM. Graças ao amigo Mateus da Mata, consegue trabalhar na segunda campanha política de Albano Franco ao governo como um dos locutores do programa eleitoral. Como ainda tem uma outra existência pela frente, não esquenta e segue adiante disposto a passar por todos obstáculos. “Eu estou precisando ganhar dinheiro em Sergipe. Está difícil mas estou fazendo força para ficar no meu Estado. Fiquei por aqui um ano e meio sem trabalhar, mesmo sem saber nada de rádio” (risos).

Casou com Terezinha Pacca e com ela uma relação de 15 anos que resultou nos filhos Cláudia e Luciano Júnior (“Hoje ele é piloto internacional da Vasp”). Do novo casamento com Lourdes Maciel, tem a filha Flávia Maria. É avô de dois.

No rádio Luciano Alves conquistou seis Bolas de Ouro, prêmio de maior valor no eixo Rio/São Paulo.

Como desejava ser piloto, contenta-se de ter um filho na profissão que sempre sonhou. “Fiz exame para a Força Aérea por duas vezes e fui reprovado diante da matéria geometria”.

Luciano Alves faleceu em Aracaju aos 67 anos, na quinta-feira, 29/2/2009.

*Reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br (16.01.2009)

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